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Homem X micro-organismos – Uma luta histórica


Texto: Prof. Paulo Alexandre Filho (Professor de História, atualmente Coordenador de Biblioteca da EREM Joaquim Távora)


Nós, humanos, somos capazes de encarar desafios grandiosos, mas sempre fomos seres frágeis diante de oponentes microscópicos. É assim desde os tempos pré-históricos, quando nossos antepassados primitivos já sofriam com moléstias causadas por micro-organismos perigosos. A paleopatologia, que é o estudo das doenças primitivas a partir de restos mortais pré-históricos, já identificou vários casos de contaminações microbiológicas em tempos remotos. Estima-se, inclusive, que espécies humanas primitivas podem ter sido extintas através da diminuição populacional influenciada pela ocorrência de epidemias devastadoras. 

As ocorrências de doenças que afetaram grandes populações se verificaram através de diversos episódios históricos registrados, sendo algumas delas bastante reconhecidas pelos efeitos extremos que provocaram sobre as sociedades. 

A peste é uma das mais conhecidas manifestações bacteriológicas de todos os tempos. Provocada pela bactéria Yersinia pestis, há cerca de 6 mil anos esta doença já representava um tormento para a humanidade através de suas variações: a peste bubônica, a peste septicêmica e a peste pneumônica. A mais conhecida de suas epidemias foi a famosa grande Peste Negra, que ocorreu nos fins da Idade Média e que matou cerca de um terço da população europeia através da peste bubônica. O terror deste período ficou marcado em diversos registros documentais que relatavam cidades sendo exterminadas e reinos arruinados pela doença. Lidar com a peste exigiu de seus contemporâneos uma série de medidas extremas como o fortíssimo apego religioso que tratava a moléstia como um castigo divino e a necessidade de proteção de populações inteiras no isolamento de fortalezas durante anos. Os conhecimentos científicos para enfrentar a doença eram muito limitados, mas em meio a toda desgraça atuavam os chamados médicos de peste, figuras trajadas de forma arrepiante que realizavam os cuidados mínimos para amenizar o sofrimento das vítimas. Depois da Peste Negra a Europa não era mais a mesma e os ânimos e expectativas da sociedade buscaram superar os tempos sombrios do domínio da epidemia. As transformações sociais, econômicas e culturais que se seguiram não por acaso passaram a ser conhecidas como Renascimento.

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“O Triunfo da Morte”, pintura de Pieter Bruegel (1562)

Depois da Peste Negra e já na era da colonização das Américas, várias outras epidemias ocorreram nos séculos 15 e 16. Era sarampo, gripe, peste bubônica, malária, difteria, tifo, cólera e varíola, que foi a mais arrasadora dessas epidemias. Há quem estime que 10% da humanidade não resistiu a essa onda de doenças em relativamente pouco tempo. Já que mencionamos a colonização das Américas, os índios sofreram bastante com a chegada dos europeus, pois logo contraíram doenças desconhecidas por eles que acabaram sendo gravíssima, sendo a gripe comum uma delas – não havia gripe nem anticorpos naturais no Novo Mundo até a chegada dos colonizadores. 

No século 19 foi a vez da tuberculose causar pânico no mundo. Esta forte doença respiratória causada pelo Basilo de Koch matou cerca de 1 bilhão de pessoas em 100 anos, mas acabou também motivando uma intensa busca pelo conhecimento médico e científico para lidar com esse tipo de ameaça. A literatura romântica do século 19 consagrou a doença como “O mal do século” e expoentes das letras acabaram morrendo de tuberculose, a exemplo dos poetas brasileiros Álvares de Azevedo e Castro Alves. 

No século 20 foi imenso o desespero causado pela pandemia da Gripe Espanhola que, apesar do nome, surgiu no estado do Kansas, nos EUA, em 1918. É uma das epidemias mais mortais de todos os tempos, tendo atingido 25% da população mundial da época e tendo matado até cerca de 100 milhões de pessoas. Assim como vemos hoje com o Coronavírus, a taxa de contágio da Gripe Espanhola era muito elevada, sua expansão atingiu o mundo inteiro em 2 anos (enquanto o Coronavírus não precisou de mais de 3 meses para isso). Até o então presidente do Brasil, Rodrigues Alves, acabou morrendo da doença em 16 de janeiro de 1919. 

Várias ocorrências de surtos, epidemias, pandemias e endemias atingiram ao longo dos tempos a frágil existência humana e desafiaram nossa capacidade de enfrentamento. Apesar de vivemos hoje no ponto mais avançado de nossas condições científicas e tecnológicas, ainda estamos vulneráveis ao perigo invisível das doenças infecto-contagiosas causadas por micro-organismos. Hoje estamos exatamente diante daquele que é historicamente o avanço mais rápido de uma doença através do globo. É ainda imprevisível concluir até onde o Coronavírus pode chegar, mas a esperança da superação é real, considerando consciência coletiva, a ação das instituições e a habilidade de nossa ciência.


Confira os seguintes links com informações complementares:

 


Vídeo:

 

 

 

 

 

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